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A cada fase, o seu desafio

Por Érica Saião 

Desafio. Essa palavra é frequentemente repetida nos discursos corporativos e motivacionais, nas entrevistas de emprego e até mesmo nas rodas de amigos. Gostar de enfrentar desafios, ter capacidade de superação, é o que se espera de um profissional bem-sucedido e de uma pessoa bem resolvida.

O desafio nem sempre é um grande projeto ou representa uma mudança de vida; pode ser uma pequena mudança de hábito. Não é a dimensão ou a complexidade que define o desafio, mas a superação que ele representa para cada um. Afinal, desafio é o ato de instigar alguém a realizar algo além de suas competências e habilidades. Como definido no dicionário, o que o torna intrinsecamente individual e subjetivo.

Reli hoje um texto escrito quando minha filha aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas. Pode parecer algo simples e corriqueiro, já que a maioria das pessoas vence essa etapa na infância, mas era um desafio para uma menina de seis anos.

Tiramos as rodinhas, embora ela ainda se apoiasse nelas e não conseguisse se equilibrar nas duas rodas. Prometi que a seguraria e fui correndo ao lado dela, segurando no selim, enquanto ela embalava suas pedaladas, tentando se equilibrar. Aos poucos, fui soltando, e ela, adquirindo confiança. Até que já estava seguindo sozinha, pedalando em direção ao pai.

A nossa menina, que no começo mal se concentrava nas pedaladas por estar preocupada em repetir seu pedido para eu não soltar, em alguns minutos já se sentia segura o bastante para dizer “não me ajuda”, mesmo quando saía em zigue-zague, quase caindo.

“Você pode fazer duas tarefas ao mesmo tempo, mas não vai focar nas duas.”

Parava. Tentava uma, duas, três vezes, a cada retomada, mas conseguia dar o arranque novamente e engrenar na pedalada. Isso é encarar o desafio. Persistir, não desistir. Desenvolver seu próprio método, sua forma de realizar, até se sentir segura. Superar-se. Foi isso que eu registrei sobre a experiência de ver a minha filha dominando a bicicleta sem rodinhas.

E por que eu estou me lembrando disso? Porque agora, já adolescente, os desafios dela são outros, com obrigações estudantis, descoberta de si mesma e hormônios aflorando, tudo misturado na sua cabecinha. E, no fundo, eu queria que ela dissesse para eu não soltá-la. Mas sabe o que ela fez quando chegou do colégio hoje com a cabeça cheia e desanimada?

Trocou de roupa e foi pedalar. E voltou energizada e segura de si. Olhando para ela ali, de semblante mais leve, eu percebi que tinha um pouquinho de mim naquele processo.

Por isso, os multitarefas demoram um pouco mais para concluir uma tarefa, cometem mais erros e ainda são mais estressados, segundo especialistas. Num período em que nunca se falou tanto em ansiedade e burnout, será que não estamos contribuindo para isso?

Não poderia deixar de reconhecer que a maternidade me ensinou muitas coisas; entre elas, a ser uma líder melhor.

Não vem aqui uma mensagem romantizada sobre maternidade e carreira, não.

Longe de mim dizer que é simples conciliar a maternidade com a carreira! Nos primeiros anos, então, é uma loucura! De gêmeos, precisaria de um livro para contar. É preciso muito suporte para tudo dar certo, e isso com dor e culpa. Mas, a cada desafio vencido, a gente se fortalece, a gente cria casca.

Quem dorme três horas por noite amamentando gêmeos aprende a se restaurar em velocidade máxima. Quem encara madrugada na emergência com filho e tem que estar ativa no dia seguinte aprende a tirar a energia de onde nem sabe que tem! Isso sem contar que a probabilidade de voltar no dia seguinte com o outro filho por ter pegado a virose do irmão é altíssima.

“Num período em que nunca se falou tanto em ansiedade e burnout, será que não estamos contribuindo para isso?”

Nenhuma ligação de cliente ou do diretor é tão alarmante quanto a ligação da creche. Pode cair o mundo: o filho estando bem, o desafio do trabalho fica fácil.

Em relação à equipe, mais aprendizados. Quem vê os filhos gêmeos recebendo as mesmas orientações ao mesmo tempo e se comportando cada um a seu modo aprende a respeitar as individualidades e a entender na prática que a comunicação não pode ser feita de uma mesma forma para indivíduos diferentes. É preciso saber como se comunicar com cada um.

E do mesmo modo que a minha filha na bicicleta, a gente aprende que não pode simplesmente entregar a bicicleta para um membro da equipe e esperar que ele saia pedalando. A gente precisa estar ao lado, correndo junto, mostrando que está ali para o suporte necessário se ele desequilibrar. Mas depois que ele engrena, ele começa a se aprimorar e a desenvolver seu próprio método. E, no final, você vai se orgulhar ao ver a sua contribuição refletida no seu desempenho.

Ser gestor é fácil; ser líder, não. Ser líder exige acompanhamento e suporte individual às pessoas, para que cada um se desenvolva e entregue todo o seu potencial. No fundo, um líder se parece com as mães, porque as mães de verdade são líderes natas.

“Num período em que nunca se falou tanto em ansiedade e burnout, será que não estamos contribuindo para isso?”

A cada fase, o seu desafio. Na vida adulta, os nossos desafios de carreira, relacionamento, maternidade, cuidado com nossas mães e pais, e tantos outros, têm a mesma dimensão do desafio da bicicleta para uma criança.

Se você, que está lendo essa coluna, está em dúvida sobre ser mãe e a sua carreira, se você sente que para se sentir plena precisa conciliar as duas coisas, siga em frente. É possível. Se você já é mãe que trabalha fora e está se sentindo esgotada, por mais que pense em desistir, em abrir mão daquela função gerencial, daquela oportunidade que sempre sonhou, lembre-se: como você, há muitas.

É possível.

Não tem resposta certa. Simplesmente faça o que for melhor para você. Mas não esqueça: é possível. Por mais que você saia em zigue-zague, cambaleando, é só não parar de pedalar.

Matéria de Érica Saião  para a coluna Mulher e Carreira

Encontre-a no Instagram @erica.saiao

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