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A negligência no direito básico à saúde das mulheres é criminosa

Por Katarina Brazil 

É aterrador para nós, mulheres, encarar a realidade que nos assola simplesmente por sermos mulheres. De fato, somos as mais vulneráveis em quase todos os espaços; até mesmo quando envolve o acesso aos nossos direitos básicos, como o direito à saúde. A negligência nas nossas dores não é algo novo. Historicamente, ela sempre existiu. Ocorre que, após o advento das redes sociais, alguns casos representativos de tal realidade têm ganhado maior repercussão pública, o que acaba visibilizando nossas questões.

Eu me refiro, é claro, a dois fatos muito simbólicos, ocorridos recentemente e que nos obrigam a repensar o tratamento dispensado às mulheres no campo médico. O primeiro trouxe a questão da cantora Anitta, que demorou quase 9 anos para ser diagnosticada com endometriose e poder tratar a doença, para ter mais qualidade de vida.

A respeito da endometriose, o que se sabe sobre sua causa é que ela constitui, ainda, um dos grandes desafios da ciência. No entanto, é certo que ela tem afetado cerca de 176 milhões mulheres, uma em cada dez.

“Por que as doenças ligadas aos corpos das mulheres são tão negligenciadas na medicina? “

Seus maiores sintomas envolvem dores intensas, inclusive durante a relação sexual, e acredita-se, ainda, que ela pode ser definida como uma doença crônica, afetando principalmente mulheres em idade reprodutiva.

Mas o caso da cantora suscita uma indagação muito necessária: afinal, por que as doenças ligadas aos corpos das mulheres são tão negligenciadas na medicina? Em seu relato pessoal, Anitta revela o preconceito das pessoas quando ela desabafou nas redes sociais sobre seu sofrimento e falou abertamente de suas queixas, enquanto mulher, no afã de ser acolhida, jamais estigmatizada, como acabou acontecendo.

O segundo caso, por sua vez, chocou o país: um médico anestesista estuprou uma mulher logo após a anestesia para uma cesárea, no próprio centro cirúrgico.

“É preciso entender que a violência obstétrica, os danos estéticos, os estupros e toda a sorte de abusos sexuais escancaram que somos, nós, as mulheres, o grupo mais vulnerável a essas violências.”

Veja que se tratava de um profissional médico; que deveria assisti-la, jamais violá-la. Cenas essas só vieram à tona porque foram registradas e vieram a público, tornando possível a efetivação do flagrante.

Como se vê, esses dois casos apontam e alertam para a necessidade premente de refletirmos de maneira mais aprofundada a respeito de políticas públicas direcionadas à proteção de nossos direitos, sobretudo ao direito básico das mulheres à saúde, seja ela física, mental ou psíquica.

É preciso entender que a violência obstétrica, os danos estéticos, os estupros e toda a sorte de abusos sexuais escancaram que somos, nós, as mulheres, o grupo mais vulnerável a essas violências. É importante enfatizar que a violência é sempre algo repugnante, em qualquer espaço. Mas, quando ela ocorre no campo médico, em um momento em que estamos extremante vulneráveis e necessitamos de atendimento e da operacionalização de nossas dores, dos nossos sintomas, ela passa a ser mais repugnante ainda, porque leva a um dano existencial, quase sempre incalculável, de consequências infindáveis.

A negação de nossos direitos básicos, como é o caso do direito à saúde, é, acima de tudo, mais uma questão de gênero na sociedade brasileira.

O descaso que ocorre contra nós não é por acaso, mas decorrência da violência estrutural contra as mulheres e da constante e reiterada violação de nossos Direitos Humanos.

“É aterrador para nós, mulheres, encarar a realidade que nos assola simplesmente por sermos mulheres. De fato, somos as mais vulneráveis em quase todos os espaços; até mesmo quando envolve o acesso aos nossos direitos básicos, como o direito à saúde.”

Penso que é necessário registrar e manifestar a nossa indignação diante das constantes violências de gênero que ocorrem na sociedade, por entendermos que nossa dignidade passa a ser violada também diante da ameaça que paira de sermos violentadas também nesses espaços em que deveríamos ser cuidadas, respeitadas, jamais molestadas.

Contudo, percebe-se em muitos relatos e, falando em primeira pessoa, na prática da minha advocacia, compartilho a seguinte experiência: naqueles momentos nos quais estamos mais vulneráveis, é quando a dominação masculina mais acontece, geralmente em seu estado puro.

Ela sempre anda à espreita de nós, mulheres, e o abismo que ela abre nas nossas vidas e em nossos corpos é algo que não se pode dizer com certeza se conseguiremos transpor. Estamos sempre vulneráveis a ela, nas sociedades machistas, excludentes e violentas.

Todo esse estado de coisas nos avisa que, de fato, em nenhum lugar estaremos seguras sendo mulheres. Por isso, a luta pela dignidade humana das mulheres é uma luta constante e de toda a sociedade, de todas as instituições e de todos os profissionais que se prezem, em todos os espaços, sejam eles públicos ou privados.

Matéria de Katarina Brazil  para a coluna Direitos das Mulheres

Encontre-a no Instagram @katarinabrasil

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