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Arte e voz como instrumento de luta contra o capacitismo

Por Fatine Oliveira 

Dia desses, fiquei pensando no próximo tema do meu texto aqui para a coluna. Várias ideias foram surgindo aos poucos, mas nenhuma delas parecia suficiente para mim. Larguei de mão. Fui espairecer, ver uma série, mexer nas redes sociais quando alguém me chamava no WhatsApp.

“Tenho muita vontade de estar em um relacionamento, sim, mas, sinceramente, estou cansada e bem desiludida.”

Era um pedido de ajuda, porém mal ela sabia que também estaria me auxiliando naquele pedido. Conversamos um pouco e, após uma troca de mensagens, tomei coragem para convidá-la a participar de uma entrevista para a coluna. Fiquei com receio no começo, mas a resposta positiva foi imediata.

Então, apresento-lhes Bartira Sene, mulher negra com deficiência, pansexual e musicista. Paulista, mora em Ribeirão Preto e adora assistir a filmes, séries e documentários. É também cantora, compositora e professora! Tudo isso com apenas 22 anos, acreditam?

Nós nos conhecemos pelas redes sociais, mas tenho tanto carinho e admiração pelo seu trabalho que é como se nos encontrássemos semanalmente pelas noites de Belo Horizonte. Espero que apreciem a nossa conversa e não deixem de segui-la nas redes. Tenho certeza de que vão se apaixonar por ela também.

“Apresento-lhes Bartira Sene, mulher negra com deficiência, pansexual e musicista.”

Fatine: Me conta a história do seu nome? Acho ele tão lindo!

Bartira: Eu amo meu nome! Meus pais arrasaram muito (risos). Bartira é um nome indígena, tupi, e significa “flor branca”. Gosto de pensar que ele traz uma força delicada; muito a ver com o jeito que sou no mundo!

Fatine: Quando começou/descobriu seu talento para a música?

Bartira: Olha, eu nasci e cresci em um ambiente extremamente musical, tanto do lado do meu pai quanto do lado da minha mãe.

Meu pai é músico (ele se chama Pereira da Viola, é um baita cantor e violeiro) e minha mãe é dançarina (Patrícia Sene, uma baita artista também, especializada em dança brasileira).

Por isso, minha infância foi indo a teatros, camarins e tudo isso. Sempre senti que queria trabalhar com música. A princípio, queria ser percussionista e, com dez anos, toquei junto de meu pai um tambor que chama Caixa de Folia, usado em folias de reis. Mas me encontrei mesmo no canto. Cantar me dá liberdade, desde sempre. Então aos treze anos eu comecei a cantar com meu pai como participação especial, participei até da gravação do DVD dele, e desde então fui só estudando cada vez mais, fazendo trabalhos de minha autoria. E no meio dessa vivência musical, descobri meu amor pela música erudita/clássica graças à Companhia MINAZ, na qual entrei em 2018, com intuito de fazer aula de canto para me preparar para o vestibular de música. E aí, quando vi estava amando esse canto “lírico”, “operístico”, foi nessa técnica de canto que encontrei ainda mais liberdade!

Então, resumindo, acredito que todo dia descubro meu amor pela música e minha paixão por estudá-la!

“A quantidade de vezes que alguém duvidou da minha capacidade foram muitas!”

Fatine: Como foi o processo de se inserir no meio musical, sendo uma mulher com deficiência?

Bartira: É um processo constante. Tenho que estar sempre ali, mostrando minha cara e aguentando certas situações, porque é muito fácil eu não estar ali. Acho que consegui entrar no meio musical muito por causa do apoio imenso vindo da minha família e de professores que sempre viram meu corpo como potência. Esse apoio todo foi e é o que me nutre para encarar todas as situações desagradáveis que acontecem.

Fatine: Você já sentiu ou passou por alguma experiência capacitista envolvendo o cenário musical? Poderia contar pra gente?

Bartira: Isso é cotidiano, tenho várias. Todas caem na mesma questão, que é acreditar que um corpo com deficiência é incapaz. Essas situações são desde a falta de acessibilidade de teatros e locais que deem pra fazer apresentações (tipo igrejas) até falas e olhares extremamente capacitistas! A quantidade de vezes que alguém duvidou da minha capacidade foram muitas! Tive problemas com profissionais do canto por acharem que não era possível eu cantar sentada, que eu “não tinha físico para cantar aquilo”, entre mil coisas.

E o pior de tudo isso é que eu acreditei várias vezes que eu realmente era menos capaz; tenho dificuldade até hoje de aceitar elogios por medo de a pessoa estar falando aquilo por dó. Impressionante como o capacitismo corrói. Acho que o que mais me incomoda dessas situações capacitistas é quando falam que “fulano só é famoso porque tem deficiência”. Isso é um ABSURDO, parece que a deficiência não pode estar junto da arte de qualidade.

“Eu acreditei várias vezes que eu realmente era menos capaz; tenho dificuldade até hoje de aceitar elogios por medo de a pessoa estar falando aquilo por dó. Impressionante como o capacitismo corrói.”

Fatine: Eu te acho uma mulher incrível, já te falei isso diversas vezes (risos). Mas, infelizmente, muitas mulheres com deficiência têm dificuldades de se relacionar afetiva ou sexualmente. Você também já se viu nessa situação?

Bartira: O elogio é mútuo, já te falei isso um monte também (risos). E, sim, nesse sentido, o que mais sinto é solidão. É um sentimento muito ruim e com o qual infelizmente estou quase me conformando. Já fiquei muito triste com isso e parei de me sentir tão sozinha quando encontrei através da internet mulheres com deficiência como você, que falam sobre isso. E entender que não sou a única e que não é culpa minha — por falta de dar chance para as pessoas, como já ouvi várias vezes, e olha que chance eu dou e muita (risos) — foi acolhedor.

Tenho muita vontade de estar em um relacionamento, sim, mas, sinceramente, estou cansada e bem desiludida.

Fatine: Por fim, você acha que a música pode ser considerada uma ferramenta para a luta anticapacitista?

Bartira: COM CERTEZA! A música é minha maior ferramenta! Ocupar espaços tão elitizados e fazer as pessoas repensarem por que que eu não estaria ali através de uma canção, de uma aria, de uma nota é muito poderoso! Sou a primeira pessoa com deficiência a entrar no curso de música da USP-RP e vou te contar que é cansativo. Tem momentos em que eu só quero cantar sem me preocupar com o resto, sem me preocupar se o fato de eu ser cadeirante e negra muda completamente o papel X da ópera, mas essa reflexão é o que é a luta anticapacitista!

Cantar, compor sobre e com, e colocar no holofote um corpo que historicamente é apagado é muito forte! Poderoso! A melhor sensação é olhar para uma plateia e perceber o olhar de pena e abrir a boca, cantar e ver o olhar de surpresa, ver a mudança de consciência ali naquele instante.Mesmo sendo uma pessoa com deficiência, a vida toda eu fui colocar essa parte de mim em composições. E em reflexão durante processo de estudo recentemente, coisa de três anos pra cá, isso mudou por completo minha relação com minha arte; entender que meu corpo é arte em todos os sentidos é a minha luta anti todo tipo de violência.

Para fechar, tem um trecho de uma música que estou compondo que acho que resume tudo que falei até agora: “Se eu canto harmonia, por que veem solidão? Se meu corpo é liberdade, por que acham que é prisão?”.

Matéria de Fatine Oliveira  para a coluna Corpos sem Filtro

Encontre-a no Instagram @fatine.oliveira

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