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Folhas



Vou citar o trecho de um livro de que gosto muito, Tudo é rio, de Carla Madeira: “ O que mais existe no mundo são pessoas que nunca vão se conhecer. Nasceram em um lugar distante e o acaso não fará com que se cruzem. Um desperdício. Muitos desses encontros destinados a não acontecer poderiam ter sido arrebatadores. Por afinidade, por atração que não se explica, por força das circunstâncias, por químicas ocultas, quem pode saber?

Quanto amor se perde nesta falta de sincronia. Não é preciso ir longe, alguém pode passar pela esquerda enquanto olhamos distraídos para a direita. Por um triz o paralelo nos obriga ao desencontro eterno. É preciso uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Existe um certo milagre nos encontros. Não é tolo dizer que o amor é sagrado”.


Ganhei esse livro de aniversário de uma amiga muito querida, Úrsula. Não era esse livro, ela disse; era para ser outro quando entrou na livraria, mas esse estava lá, em destaque, e ela o trocou de última hora. Sorri com a história, gosto das coisas feitas sem muito pensamento.

Não são mesmo os momentos sem o domínio dos pensamentos que nos traem e revelam nossos inconscientes profundos? Um ato falho, um sonho repetitivo, uma música que insiste em tocar nas nossas cabeças de manhã.

“A vida é sempre assim, transborda, não cabe apenas nas coisas que entendemos.”

Também ganhei de aniversário duas folhas. Vieram da mesma forma, fazendo-se na minha vida sem querer. Uma, delicada e transparente, veio no drinque de Laura; uma folha desidratada, colhida na praça perto do bar, despojada de toda a sua casca, só exibia os veios ínfimos de uma trama profundamente bela, desenhada pela vida. Pálida como a pele, leve como um suspiro. Frágil. Guardei-a no livro que tinha acabado de ganhar. Nem eu mesma na hora pus tanto significado no movimento das minhas mãos.


A segunda folha, não notei muito. Veio dentro de uma embalagem de presente que ganhei do Marcello. Um óculos de madeira, um pedaço de tecido para a limpeza. Certificado de garantia. Plástico. Papel.

“Sagrado é tudo ou nada. Você pode escolher.”

A folha estava ali, carimbada da marca que simboliza, feita de papel reciclado, cortada por máquina, impressa, reproduzida como o produto que acompanhava. Uma folha tão morta quanto a outra, mas de vida completamente distinta.


Não foram as folhas os meus presentes. Mas elas vieram. E as notei, uma ao lado da outra, no dia seguinte no meu quarto. Folhas secas, distintas, tão longe uma da outra e, ainda assim, ambas coladas a mim no meu quarto. Uma feita quase do nada. Outra desfeita quase de tudo.

“Componho-me, folhas. Folhas são. Todas. Folhas que caem ao vento, aos bandos, aos milhares. Derrubadas, comidas, envenenadas, inventadas.”

Folhas que guardei nas folhas do livro de Carla Madeira, na exata página desse trecho que transcrevi. Uma beleza que a vida presenteia aqui e ali quando temos de olhar para ela.

E agora as folhas não são nem mais meus presentes acidentais, porque delas fiz história para vocês. E eu poderia bem parar por aqui, mas, no caminho da noite, pela rua escura, entre o fim de um bar e o início do outro, Derek, outro amigo que não tinha me dado presente, comprou um feito de folha, embaixo de uma frondosa árvore, de um vendedor cansado com sotaque hispânico.


Eu assisti de lado enquanto o rapaz, que também usava um chapéu de folha, empurrava o bicho na mão do meu amigo. Insistia, era ajuda. Derek cedeu e em seguida me entregou o bicho: toma, para você. Eu segurei e sorri, era um inseto. Muito bem feito, apenas de dobraduras de folha, pernas de finos galhos, antenas caídas, maleáveis. Um gafanhoto verde, robusto, simpático. Carreguei o presente para casa. E ele por pouco não entra na história.


Mas a vida é sempre assim, transborda, não cabe apenas nas coisas que entendemos. Então entra o gafanhoto e é também feito de folha, escolhida, apanhada, limpa e preparada, dobrada cuidadosamente e transformada no sustento do artesão, rapaz.


Ela, ao contrário das outras, era jovem, vívida, macia. E senta-se ao meu lado perdendo-se brilho a brilho, num ressecamento que a cobre de marrom endurecido. Vai terminando a morte que começou na sua despegada da árvore. Tão lentamente que é impossível ver. Vou olhando o bicho que entrou na minha vida e tenho asco. Sua barriga mole e nodosa me trás algo inexplicável de horror.


Componho-me, folhas. Folhas são. Todas. Folhas que caem ao vento, aos bandos, aos milhares. Derrubadas, comidas, envenenadas, inventadas. Folhas que nos dão o ar. Que nutrem nossos alimentos. Folhas que fizeram de nós o que nós acreditamos que somos, à medida que escrevemos nelas a nossa história humana. Algo de horror. Folhas que escrevo assim, sem nem mesmo saber por quê. Apenas como se fosse preciso, como uma enxurrada que empurra, no completo desentendimento de futuro.


Tenho que acrescentar ao pensamento de Carla: “o amor é sagrado”. Sagrado é tudo ou nada. Você pode escolher. Mesmo o mais banal dos segundos, até o amor doce dos amigos do peito, que saem de suas rotinas para festejar conosco nosso aniversário. E se caem folhas nas esquinas que não andei, e se vão por elas amores que nunca tive, que fazer? Desespero mais com as pessoas ao meu lado que mal sei como amar. Com as poesias de mundo que se insurgem, alertando nossos constantes desavisos. Desperdiço a vida assim, longe, muito longe de conseguir aproveitá-la ou mesmo entendê-la como ela merece. Que posso querer? Sou folha.


Com carinho, para Úrsula, Daniel, Marcello, Laura, Derek e Carol; obrigada.


Encontre-a no Instagram @juliaheartsong

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