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O corpo pós-parto

Por Tatiana Amaral

Hoje o papo é sério.

Todo mundo com o mínimo de consciência sabe que o corpo muda, e muda muito, na gravidez. O.k., alguém aqui vai dizer: “Eu não mudei quase nada”. Amore, então você faz parte de um grupo seleto. O normal é a mulher engordar na gravidez. E é porque devemos engordar sem preocupação? Não! É porque a gravidez é uma soma de hormônios descontrolados, corpo louco, a novidade do ser que te incomoda bastante à medida que cresce, sensações estranhas, um monte de bobagens que brotam e fazem moradia em nossas cabeças e, para aliviar, comemos com a desculpa de que estamos grávidas.

Você vai dizer a sua amiga que não é nada disso, e por dentro vai pensar: “Putz, foi isso mesmo! Eu sei. Estamos juntas nessa”.

Como sempre faço, vou me colocar como exemplo. Se tem uma coisa que eu odeio com força é vomitar. Durante a gravidez, eu vomitava sempre e por todos os motivos. Enjoei do momento em que o espermatozoide encontrou no meu óvulo até a hora em que meu bebê saiu de dentro de mim.

Você, mamãe que enjoou bastante, você me entende, né? Pois é. Meu enjoo não me abandonou. Nada ajudava. De quebra, tive azia quase todos os dias. No quarto mês, eu já estava inchada. Colocar um dedo em minha perna era para assistir afundar e voltar aos poucos. E não pense que não lutei. Fiz tudo o que, vocês sabem, 80% das mamães não têm condições de fazer, como drenagem e pilates. Ainda assim, engordei 30 quilos em todas as minhas gestações.

“Hoje, com 43 anos e 3 filhos, eu me sinto mais bonita e gostosa do que em todos os anos que gastei cultuando meu corpo em academia. Isso quer dizer que desapeguei? Nem tanto. Mas o tempo mudou.”

E não foi só porque eu engravidei. Estamos aqui para falar a verdade, não é? Engravidar engorda, sim, mas tem gente que passa por isso sem grandes danos. Só que eu fiquei ansiosa, nervosa por causa dos enjoos, das azias, das dores nas pernas e costas. E o que eu fazia? Comia. Eu me presenteava com comidas de que eu gostava muito, tipo: McDonald’s. E, sim, depois eu passava mal, mas no dia seguinte eu queria outra vez.

A ideia aqui não é dizer faça ou não faça. A gravidez é a continuação dos seus hábitos alimentares de forma exagerada ou menos habituais.

Isso vai de pessoa para pessoa. A conversa aqui é sobre o depois. O bebê não faz mais parte do seu corpo e agora é você com o que ficou. O que fazer?

Bom, mais uma vez me sinto na obrigação de contar o que aconteceu comigo. Quando tive meu primeiro filho, engordei 30 quilos e perdi tudo e um pouco mais nos primeiros quatro meses. Você vai dizer: “Que máximo!”. Talvez não seja. E esse é o problema.

Eu era magra, no estilo ratinha de academia. Gostava de cuidar do corpo e acreditava que ele era a parte mais importante do meu relacionamento. Grávida, eu fiquei imensa e, com isso, acreditei que meu casamento afundaria. Esse é o problema sobre o qual devemos discutir. Desmistifique o corpo. Ninguém me avisou que quando o filho nasce a barriga fica. É a mesma barriga, só que flácida. Você se olha no espelho e acha que deixaram mais um filho lá dentro e ninguém notou. Calma!

Se você não for a louca do corpo e na hora do parto já foi fazer uma lipo, uma abdominoplastia e de quebra uma suspensão dos seios (pelo amor de Deus, não faça isso), você vai sair do hospital com seu corpo de grávida. E isso é normal. Vou repetir porque as pessoas precisam entender: isso é normal!

Mas, como não podia deixar de ser, as pessoas pressionam até mesmo nos comentários mais inocentes. “Está usando a cinta?”, “beba muita água”, “minha vizinha ficou com uma barriga horrível, não deu outra, um ano depois o marido largou ela por outra”, “menina, suba e desça as escadas com o bebê no colo, vai te ajudar a queimar logo”, e assim enlouquecemos com a desculpa de que é o pós-parto.

Pra começar, vou dizer que, se seu companheiro ou companheira te rejeita por causa do corpo que acolheu o filho de vocês, ele ou ela é um babaca e não te merece. Esse é o ponto principal. Pessoas assim são tóxicas, e a moda agora é se livrar do lixo sempre que possível. Você é muito mais do que um corpo.

Outro ponto é que um corpo saudável, com hábitos saudáveis, com atividade física maneirada, demora de um a dois anos para voltar ao que era antes da gestação. Esse é o tempo que o seu corpo, e estou falando da parte interna, não dá externa, precisa para se recuperar. Lembre-se de que tudo dentro de você se esticou ou encolheu para suportar a criança de forma saudável. Não é natural, salvo quando seu próprio corpo reage assim, ficar perfeito nos primeiros meses.

O problema é que revistas, sites, redes sociais fazem questão de nos dizer que, sim, temos que emagrecer, temos que voltar a usar o jeans de antes, temos que ficar lindas, bem cuidadas, com o cabelo saudável e hidratado, unhas feitas, pele impecável e um companheiro ou companheira satisfeito — isso menos de seis meses após você expelir uma criança pela vagina ou cortar sua barriga para retirá-la.

Sinceramente: desmistifique o corpo.

Faça isso por você. Não tenha medo. Seu filho precisa do seu corpo e da sua mente saudáveis. Ele dependerá de você nos primeiros anos da vida dele e isso é sério. Muito sério.

Amamentar emagrece. Mas você terá medo porque seus seios não serão os mesmos e você não será desejável. Meu conselho? Se você só for desejável por causa de um corpo, caia fora.

Todo mundo envelhece, e uma hora ou outra nem o seu corpo, nem o do seu companheiro ou companheira será mais o mesmo. E ninguém tem culpa disso.

Relacionamento é feito de amor, respeito, tesão (claro, mas não com a porcentagem maior), cumplicidade e compreensão. O corpo envelhece, o sexo acaba, o respeito permanece e a compreensão será a cola necessária. Pense nisso.

Outra coisa: seu filho precisa que você coma coisas saudáveis para que ele receba o melhor no seu leite. Então se você quiser mesmo perder o que ficou da gravidez, aproveite esse momento. Mas sem neuras, sem culpa nem desespero. Vá no seu tempo.

Eu nunca voltei ao meu corpo de antes e não sinto falta disso. Hoje, com 43 anos e 3 filhos, eu me sinto mais bonita e gostosa do que em todos os anos que gastei cultuando meu corpo em academia. Isso quer dizer que desapeguei? Nem tanto. Mas o tempo mudou, a pandemia nos trancafiou em casa e eu passei a detestar academia e a aproveitar atividades físicas que envolvam diversão, até porque hoje faço com as crianças. Se visto 3 números a mais, isso pouco me importa; eu estou feliz assim, meu marido não tem do que reclamar, meus filhos não carregam o peso de ter mudado meu corpo, e eu… bom, eu aprendi a me amar tanto que é impossível não ser amada.

Pense nisso. O corpo muda, mas nem sempre é negativo ou desesperador. Muitas vezes é até do que você precisa. Olhe para si mesma e diga: “Corpo lindo, você me presenteou com essa maravilha. Agora vamos juntos, sem pressa, porque somos mais do que isso”.

É assim eu acabo essa matéria. Gerar um filho é um ato de amor, mas não como nos ensinaram, porque ninguém é capaz de dar ao outro o que não tem. Se você não se ama, será incapaz de amar outra pessoa, incluindo o seu filho. E, no final, o amor é o mais importante de todos os pontos.

Matéria de Tatiana Amaral  para a coluna Desabafo de Mãe

Encontre-a no Instagram @tatianaamaraloficial

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