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O etarismo nosso de cada dia

Por Ana Lucia Leitão

Sábado é dia de nos juntarmos, amigos 50+, na feirinha na praça. Roda de samba, bate-papo, pastel com caldo de cana, cana com limão, e de lá partir para outras paragens. Depois da feirinha, fomos para um lançamento de um livro na Folha Seca (livraria tradicional no centro do Rio), com a clássica e deliciosa roda de samba da Ouvidor. Acabou cedo, às 18h, aí alguém sugeriu um espaço novo, ali no centro mesmo, onde estava rolando outra boa roda de samba. Insaciáveis e embalados por “umas quantas” caipirinhas e cervejinhas, fomos pra roda, mas com a preocupação de colocar alguma coisa no estômago, porque a experiência nos lembrou que no dia seguinte seria bem mais ameno se misturássemos álcool com comida e muita água. O lugar tinha aberto recentemente, então só serviam caldinho de feijão e porção de aipim frito.

Pedimos aipim, e uma amiga resolveu comprar o caldinho, mas beliscar o aipim primeiro. Quando foi pedir, escutou da atendente que achava que já não tinha mais, porque os “jovens” tomavam mais caldinho, mas que ela podia trocar pela porção de aipim. Sério. Não sei de que estudo científico tiraram a ideia de que aipim é comida de velho, ou se ela não se expressou bem; sei que minha amiga ficou revoltada e acabou tomando um caldinho com gosto de ranço.

E eu fiquei bem curiosa pra tentar entender essa lógica alimentar. Percebi que pode ser pura ignorância sobre gente mais velha, falta de costume mesmo, de convivência. Porque lá nessa roda, fora o nosso grupo, só tinha gente bem jovem.

“Várias meninas já me abordaram nas festas dando parabéns, dizendo “quando crescer (sic) quero ser igual a você”

E em vários outros lugares que gostamos de frequentar, costumamos ser exceção. Dançar, beber e fazer “baratona” parece que são prerrogativas de jovens. Claro que, depois de um tempo, temos que sentar um pouco, dar uma descansada. Mas várias meninas já me abordaram nas festas dando parabéns, dizendo “quando crescer (sic) quero ser igual a você”. Uma outra me disse “queria que minha mãe tivesse a sua onda!” (minha filha discorda, como vocês já sabem).

Eu acho muito legal essa abordagem, meninas se dando conta de que velhice não é doença e tal, mas não deixa de ser um resquício de etarismo; um papel que os velhos devem cumprir na sociedade e que alguns subvertem. Não é isso, não, minha gente! Continuamos a ter os mesmos desejos de antes. Às vezes nem tanta saúde, nem energia, mas o espírito é o mesmo! Outro preconceito etário é com a vontade de aprender, a criatividade, a renovação de ideias.

“No geral, o povo acha que as pessoas maduras querem apenas ensinar o que aprenderam, e não estão abertas a aprender, ou ter ideias inovadoras.”

No geral, o povo acha que as pessoas maduras querem apenas ensinar o que aprenderam e que não estão abertas a aprender ou ter ideias inovadoras. Para mim, esse é o preconceito mais cruel. Tolher a liberdade de pensar diferente, de criar, de se reinventar é matar uma parte de nós.

Eu sempre me considerei uma pessoa criativa e, com os anos, tenho ainda mais material base para reordenar, ver por outra perspectiva, ver além. E continuo tendo toda a motivação para isso, ainda mais, até! Um dia, no parCão, conversando com outros donos de cachorros, eles jovens, falamos de veterinários, e eu elogiei uma veterinária bem novinha, cujo valor da consulta era baixo. Inferi, então, que poderia ser por estar começando na carreira. Aí eles, animadíssimos, disseram que a idade mais nova até ajuda, porque um profissional mais velho faz menos esforço para ser melhor. Fiz aquela cara de “hein?!”, um deles se deu conta e ponderou para não generalizarmos… Pois é, né?

Eu, toda a minha vida, vou fazer esforço para ser melhor do que fui ontem, até porque estou sempre querendo fazer algo novo. Assim como eu, muita gente pensa o mesmo. Claro que tem gente que envelhece e se acomoda e que está feliz assim.

Claro que tem o lado positivo de respeito às pessoas maduras e as limitações que a idade traz. O que é chato é colocarem um rótulo, como se a idade fosse um padrão de comportamento. Foi ótimo, na recente viagem que fizemos eu e meu namorado, também grisalho, que nos colocassem na fila preferencial da checagem de documentos. Ficamos menos tempo de pé. Mas minha mãe era uma que não gostava de ficar na preferencial. Quando ia ao banco, lá com seus 80 e poucos, dizia que era mais lenta essa fila, porque estava cheia de “velhinhos”.

A idade pode ser uma questão de ponto de vista.

Matéria de Ana Lucia Leitão para a coluna 50+

Encontre-a no Instagram @aninhaleitao2

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